Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #1


Se tem uma coisa nessa vida que eu nunca fui boa foi em escrever narrativas. Me lembro que na oitava série (nem é mais assim que se chama) eu precisava escrever uma história para um trabalho final de Língua Portuguesa. Eu, no auge da minha sabedoria de adolescente, decidi que reescreveria, mudando algumas pequenas partes (na verdade quase nada), a história de João de Santo Cristo, afinal a minha professora jamais teria ouvido àquela música tão bacana e tão jovem. Bom, sorte minha que fui uma boa garota durante o ano todo.

Outra história: quando estava fazendo cursinho pré-vestibular, frequentava as aulas de redação no período oposto ao das aulas. Não conhecia muito bem a professora, nem ela a mim, mas ela já tinha percebido que eu manjava dos paranauê da dissertação. Foi então que ela pediu que escrevêssemos uma narrativa. No momento da entrega do texto corrigido:
- Beatriz?
- Eu.
- Você?!
- É.

Mas por que dizes isto jovem menina que não sabe escrever narrativas?

Para dizer-te que a partir de hoje estou me desafiando a escrever uma narrativa por dia durante trinta dias e torná-las públicas por aqui! (Eu devo saber o buraco onde estou me metendo).

Já vi outras pessoas fazerem desafios criativos, como a Zilah do blog Das Coisinhas (já falamos dela aqui) que confeccionou 30 produtos, um por dia, durante um mês. Parte do dinheiro da venda dos trabalhos foi revertida para uma ação social. Foi super legal, eu acompanhei durante todo o mês. O meu desafio é mais humilde, mas é um começo e seu objetivo principal é tirar de mim esta história de que não sei escrever histórias. Ou quase isso.

A partir de hoje, teremos uma narrativa (grande ou pequena, boa ou ruim, do jeito que for) aqui no blog, seja dia de post ou não, durante 30 dias. Talvez saia de madrugada, mas vai sair. E, por favor, não exija de mim, nem crie expectativas. Estamos combinados, cara pálida? Então, lá vai a primeira:



Desafio Criativo - 30 dias 30 narrativas
Dia #1

Como era de rotina, entrou, verificou as correspondências e ligou o wi-fi do celular, enquanto acariciava o gato, sentada na poltrona de retalhos (a sua preferida, e não só por ser a única da casa). Recostou-se um pouco, pode ver que a louça ainda estava na pia, afinal quem poderia ter lavado-a, mas... quem sabe um milagre. Outro carinho no gato e um pensamento "não quero nunca mais levantar daqui".

As pernas doíam um tanto, suspendeu-as no banquinho, tirou o sapato e soltou o cabelo. Ah, os pequenos prazeres da vida. A sensação de desfazer-se de um sapato usado a horas.

Permitiu-se dez minutos de descanso e foi até a cozinha. A noite estava chuvosa e Ana não estava com energias suficientes para cozinhar e lavar louça. Teria que escolher entre uma das tarefas. Olhou para o encarte da pizzaria grudado com um ímã na geladeira e pensou "um dia a mais, um dia a menos", mas aí lembrou-se de que o pagamento era só na próxima semana, "talvez eu faça jejum".

Colocou Cássia Eller para tocar e foi para o banho. De volta ao quarto, lembrou que tinha roupa para passar e as calcinhas limpas já estavam quase no fim, "ai, ai...". 

Reconsiderou sobre a pizza. Talvez se arrumasse mais um emprego, talvez a noite de garçonete... Chacoalhou a cabeça em um gesto negativo como se conversasse com alguém. Na busca pela geladeira, encontrou ovos, queijo, carne e arroz requentado. Dava para o gasto e para a fome. 

Depois da comida, voltou para a poltrona que fora comprada em uma loja de usados, mas bastou uma colcha de retalhos (que ela ganhara da vó ainda na adolescência) para que ficasse aconchegante. Sentou, recostou-se, pegou o controle da tv, o interfone tocou. "Vou esperar, se não insistirem, nem levanto daqui", tocou de novo, talvez fosse algo importante. Ana decidiu atender.

- Oi, é da casa da Maria?
- Não, só da Ana. 

Desligou o interfone e decidiu ir direto para a cama, já era muito por um só dia.
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