Dia #15
Amanda sempre teve um sonho. Desde menina, sonhava em ser gente grande, grande e importante. Brincava de Barbie porque ela era uma mulher adulta e resolvida. Amanda queria ser como a Barbie, uma mulher de negócios.
Na época que Amanda nasceu, não era costume que as mães saíssem de casa para trabalhar. E a dependência financeira materna trouxe vários conselhos do tipo "jamais dependa de um homem", "tenha dinheiro para, pelo menos, comprar suas calcinhas"... Claro que Amanda cresceu acreditando que deveria estar longe das garras da dependência financeira masculina. Aquilo tudo estava encrustado dentro dela.
Amanda fez tudo certo. Ou achava que estava fazendo. Até que um dia encontrou alguém, alguém que parecia especial. Demorou um tempo para que ela pudesse resolver-se e permitir-se conhecer. O tempo foi passando e Amanda se acostumando à presença dele.
A primeira vez que ela sentiu vontade de estar casada com ele foi no supermercado. Os dois saíram para comprar algumas coisas e preparar um jantar na casa dele. Naquele momento, ela percebeu que talvez não fosse tão ruim assim ter alguém por perto, sentiu até que talvez fosse bom ter alguém para fazer companhia no supermercado e ajudar a decidir qual mistura comprar. Ela olhou de longe pra ele e sentiu uma pontadinha de alegria no coração. Estava onde queria estar.
***
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #14
Dia #14
Hoje fui ao médico. Não é uma experiência prazerosa, mas também não adio como se fosse um sofrimento sem fim. Já aprendi que a medicina preventiva é (muito) mais eficaz do que a curativa. (O SUS poderia aprender isso também).
Por mais artifícios que as clínicas arranjem (tv, revista, brinquedos, café, lanchonete, animadoras de torcida...) é sempre um tédio ficar por uma eternidade sentada na recepção olhando para a cara (na maioria das vezes) mal humorada da recepcionista.
O que será que os médicos tanto fazem lá dentro que nunca, nunca mais, atendem?! E quando atendem, geralmente a consulta é express (pra logo poderem voltar a fazer seja lá o quê). Nem sei porque colocam cadeiras dentro dos consultórios, deve ser por uma questão estética. Ou então, eles, os médicos, precisam delas para executarem suas tarefas secretas).
Voltando para a sala de espera, depois de ler todas as revistas (velhas) disponíveis e desistir de assistir à televisão, ou porque o programa é chato ou porque o volume está tão baixo que é impossível ouvir, você começa a reparar nos tipos humanos daquele lugar. (Ao menos eu faço isso, e não é só no consultório médico, confesso).
Tem sempre alguém parecido com alguém que você conhece (ou talvez seja só o seu cérebro tentando arrumar uma distração). Tem sempre alguém cochilando (às vezes, eu sou desse grupo), alguma criança entediadíssima/largada na cadeira/sofá/colo da mãe.
Tem sempre aquele que fala pelos cotovelos (desse eu sempre tento sentar longe), tem alguém alguém no celular (mas esse tem em todo lugar, é tipo tiririca), alguém lendo e alguém que encontra outro alguém. (Nessa hora a gente sempre reza para que esse encontro não seja com o tagarela da vez).
Tem aqueles que vão preparados. Geralmente eles são estudantes com livros ou senhoras com crochê. Tem também aquele perdido, não importa quantas placas existam, ele nunca encontrará o banheiro. Aí a recepcionista, que já estava mal humorada, tem que levantar e mostrar para a criatura.
Poderia listar por linhas e mais linhas os tipos que encontramos nos consultórios por aí, mas o médico me chamou e, claro, a consulta foi express. Antes que você me pergunte, já respondi. Farei exames, claro de novo. E voltarei lá com os resultados, claro mais uma vez. Pra terminar, só me sinto na obrigação de listar mais um tipo: o da recepcionista que te chama de "flor".
Não há nada que a sala de espera do médico não possa fazer por você e pelos seus pensamentos.
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #13
Dia #13
Preciso escrever uma história, mas a cabeça não está funcionando. Estou com sono e a única vontade é deixar isso para lá. Eu já sabia que isso iria acontecer, por isso mesmo, deixei registrada publicamente a minha intenção de escrever trinta textos em trinta dias corridos, assim a obrigação não me deixaria desistir. Já procrastinei, já tentei me inspirar, mas não resolveu. Então, eu decidi contar uma história, essa aqui que está acontecendo agora: eu, o computador, o sono, a procrastinação e a lembrança de que amanhã acordo cedo.
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Preciso escrever uma história, mas a cabeça não está funcionando. Estou com sono e a única vontade é deixar isso para lá. Eu já sabia que isso iria acontecer, por isso mesmo, deixei registrada publicamente a minha intenção de escrever trinta textos em trinta dias corridos, assim a obrigação não me deixaria desistir. Já procrastinei, já tentei me inspirar, mas não resolveu. Então, eu decidi contar uma história, essa aqui que está acontecendo agora: eu, o computador, o sono, a procrastinação e a lembrança de que amanhã acordo cedo.
Durante minha procrastinação, eu cortei pequenos círculos vermelhos que virarão pepperonis na festinha de aniversário dos sobrinhos, eu assisti a vídeos do Youtube e, claro, vaguei pelo Facebook (preciso perder menos tempo com isso). Aliás, descobri um canal, o Eu Maior. Me pareceu interessantíssimo, tem até o Rubem Alves.
Com a meia noite, chegou o sono, a dor nas costas e na poupança, muito tempo sentada, mesmo que na cama, começa a incomodar. De tempos em tempos, inclusive agora, me lembro que amanhã vou ao médico e, por isso, tenho que acordar cedo. Pelo menos esta procrastinação, a da consulta no otorrino, eu venci. Aliás, diz otorrinolaringologista três vezes rapidinho: otorrinolaringologistaotorrinolaringologistaotorrinolaringologista!
Me desculpe por este texto, caro leitor. As dores nas costas já não permitiam esperar por uma inspiração cósmica. Já estou ficando com fome e isso, a essa hora, é um problema, porque a fome e a preguiça entram em forte discussão. Como a preguiça sempre vence e eu detesto ficar com fome, preciso ir dormir logo, assim só sinto a fome amanhã, entende?
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #12
Dia #12
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Marina acabara de chegar na nova cidade, buscando uma nova vida, e tudo que precisava era de um lugar para dormir e um emprego, mas este último só pela manhã seguinte. Encontrou o endereço da quitinete mobiliada que já estava alugada para ela, o lugar era bom, pequeno, mas o tamanho bastava.
Marina era professora, por isso, suspeitava que seria um pouco difícil conseguir um trabalho, porque as aulas já haviam começado, certamente as vagas já estariam preenchidas. Mesmo assim, bateu na primeira porta.
- Bom dia! Sou Marina, gostaria de entregar o meu currículo, sou professora e cheguei na cidade ontem.
- Bom dia. Você pode deixar o currículo comigo, eu encaminho para a coordenação da escola.
Bem, na primeira tentativa, a receptividade não foi das mais calorosas, mas pelo menos o "bom dia" de volta Marina recebeu. Essa era uma prática que ela detestava com todas as forças: entregar currículo, procurar emprego, expor-se. Mas foi necessário, depois de tudo o que aconteceu, ela precisava mudar de escola, de cidade, de estado, de país, de mundo... Se houvesse lugar em outra galáxia, Marina com certeza teria embarcado para lá sem pretensão de volta.
Alguns currículos entregados depois, Marina descansava em casa. Com a janela aberta, sentindo o vento que afastava o calor, começou a lembrar de como havia sido a sua vida vivendo na mesma cidade por toda a vida e, a partir daí, passou a cogitar hipóteses das novidades que o endereço novo poderia lhe trazer, talvez amigos, trabalho, rotinas diferentes, ir trabalhar de bicicleta, quem sabe um novo amor... Esta palavra arrepiou até o último cabelo do neurônio mais distraído de Marina, um novo amor não.
- Nada de amores! Gritou ela, como que ameaçando o cupido.
Mais um tempo se passou e, a esta altura, Marina já cumprimentava dois vizinhos, a da frente e o debaixo. Neste entremeio, conseguiu também um trabalho. Uma das escolas chamou-a para substituir uma professora. Já era uma grana a mais, ela ainda tinha alguma reserva, mas o trabalho era um prazer, ocupava a mente e cansava o corpo.
O caso é que, com o passar dos meses, como já era de se esperar, o coração começou a dar uma trégua, o senhor cupido deixou de receber ameaças e, claro, acabou criando confiança. Lembra-se do vizinho debaixo? Pois bem. Agora já existiam algumas conversas no corredor e gentilezas, como carregar as sacolas do supermercado enquanto subiam as escadas conversando. Paulo, o vizinho, era uma homem simpático, tinha um filho já moço que estudava fora do país e nunca tinha sido casado.
Das conversas no corredor, passaram a passeios ao cinema, jantares, caminhadas... Os passos eram lentos e prazerosos, ninguém era forçado a nada, apenas as vontades apareciam e eles se permitiam. É claro que tempos depois virou um namoro dos bons e Marina já nem se lembrava mais do que havia lhe trazido para aquela cidade, já estava habituada ao clima quente, a nova escola, ao apartamento pequeno, ao cheiro dele...
Assim eles passaram bastante tempo, morando em dois andares. Até que um dia, Paulo resolveu que já era hora de chamar Marina de esposa. Ele pediu, ela aceitou. E a última notícia que tive dos dois é que estavam em lua de mel, pela oitava vez.
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #9 #10 #11
Dia #9
Dia #10
obs.: me enrolei no final de semana e não consegui postar os textos nos dias corretos, por isso hoje, segunda, veio com um combo de sábado e domingo.
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Ela não queria tomar aquela decisão. Na verdade, não estava em uma fase de tomar decisões por mais que elas urgissem em acontecer, protelava como quem deixa pra lá lavar a louça do jantar antes de dormir. Passou dias e dias a pensar em como poderia mudar aquela situação e nada, nada, pareceria resolver, além de "aquela decisão". O coração doía que chegava a transbordar dor pelos olhos só de imaginar a possibilidade de viver sem ele, sem seu grande amor.
A vida parecia um maremoto avassalador entre os dois. As escolhas, as verdades, as lembranças, as decisões... tudo era diferente. A olho nu pareciam o par perfeito, mas de perto, eram muitos desencontros que mais pareciam com encontros fortes, como uma batida em alta velocidade, que nunca fica sem cicatriz. O tempo e o convívio trouxeram muitas cicatrizes, algumas ainda doloridas, outras ela desconfiava que nunca, de fato, cicatrizariam.
Com o coração doendo, lutando contra a incerteza de que o caminho era a separação, ela mais uma vez buscou refúgio em seu único lugar seguro, o abraço dele. Então, o acelerado acalmou-se, como que se a chuva fina viesse apagar o fogo que transformava tudo em cinza. Como poderia ser uma vida sem? Como poderia ser diferente? Como poderia ser?
E mais uma vez decidiu permanecer no seu porto, na terra firme, no carinho, no aconchego. Talvez essa não fosse o ponto mais seguro. Mas era a única certeza, o amor.
***
Marina e Carlos namoravam há um ano. Ela com 16, ele com 17 anos. Nessa idade, tudo parece infinito, aquele amor então, duraria para esta e outras vidas. Todo dia tinha um bilhetinho declarando o amor eterno que um sentia pelo amor, se não era dela para ele, era dele para ela. Amor e mais amor.
Você, leitor, se tiver mais de 25 anos, deve estar achando esta história uma melosidade sem fim e sem propósito, mas deve-se ser adolescente para entender o coração de um. E eu aposto os meus cinco dedos da mão direita que você passou pela adolescência. E, consequentemente, viveu um amor assim, aliás, aposto os dedos da outra mão se não foi mais de um.
Não diferente foi com Marina e Carlos, depois de um ano, cinco meses e 27 dias de amor eterno, uma menina de cabelos loiros e olhos verdes passou pelo caminho de Carlos e se encantou pelo rapaz. Marina acabou sendo deixada de escanteio. E Carlos foi viver outro amor infinito.
Leitor, leitor... Não fique com raiva do menino, nem com pena da menina. Muito menos deseje coisas ruins para o terceiro elemento deste triângulo. Todos passam bem hoje, e já quase nem se lembram deste amor adolescente, afinal, todos hoje têm um novo amor (infinito).
***
Dia #11
Andreia estava às vésperas do vestibular, precisava escolher um curso, ou melhor, uma profissão para toda a vida. Era uma escolha tão imensa que ela não entendia porque não conseguia escolher um. Começou por exclusão:
- Exatas, não. Biológicas também não. Tá, diminuíram-se as possibilidades. Agora de 144 páginas no Manual do Vestibulando, sobraram apenas 37. Estamos caminhando.
Da mesma forma que não entendia o porquê de não conseguir escolher um, não entendia porque deveria escolher apenas um:
- Tanto tempo de vida ainda e eu aqui precisando decidir agora já.
A próxima tática foi excluir os cursos com grande concorrência.
- Uhumm, mais passos em direção ao futuro.
Ela achou que seria um absurdo a próxima tática, mas depois que a mãe já havia lhe perguntado pela terceira vez se já havia concluído a inscrição, Andreia decidiu parar de encarar aquela revista e partir pro abraço. Fez o que, de certa forma, já estava fazendo enquanto procurava uma carreira sólida e promissora naquelas páginas: sorteio. Como quem prepara o amigo secreto da família, escreveu os nomes em papeizinhos, chacoalhou-os entre as mãos, atirou-os para cima, como nos sorteios do Faustão e pronto. Feito. Decidido.
Pela quarta vez naquela noite:
- Filha, fez a inscrição para a prova?
- Fiz.
- Qual curso?
- Filosofia.
- Quê?
- Filosofia.
- Mas... por que isso agora?
- Ué, você me mandou escolher um curso. Eu escolhi. Ou melhor, o curso me escolheu - respondeu sem revelar como teria sido a escolhida pelo curso.
- Vou falar com o seu pai.
- Tá.
Passado o trauma paterno e os quatro anos de graduação, Andreia se formou com direito à beca e ao diploma. Agora, era uma graduada a procurar emprego, como havia feito há uns anos atrás, buscava uma carreira sólida e promissora, mas agora no mercado de trabalho, pois tinha contas a pagar e, até hoje, não encontrou ninguém que aceitasse diploma como forma de escambo.
***obs.: me enrolei no final de semana e não consegui postar os textos nos dias corretos, por isso hoje, segunda, veio com um combo de sábado e domingo.
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #8
Dia #8
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Neuza já estava ali a pelo menos uns 45 minutos. Olhava para todos os lados, examinava todas as possibilidades, caculando a exatidão dos iminentes movimentos. Em meio a estes cálculos, surgiu a matemática da vida; começaram a pipocar pensamentos. Mas não da forma que antes vinham. Agora eles estavam organizados, pareciam mais óbvios, mais lógicos, mais objetivos... Assim como a quantidade de veículos que passavam por debaixo daquele viaduto.
Então, passou um rapaz, jovem, e entregou-lhe um folheto desses de promoção de mercado. O moço disse bom dia enquanto oferecia-lhe o papel. Neuza pensou em recusar como sempre fez, mas já que seria a última vez mesmo, aceitou o papel e observou o rapaz partir. Mas foi interrompida pelo barulho de um grande caminhão que buzinou alto quando passava por debaixo de seus pés.
Foi quando Neuza lembrou-se do que fora fazer naquele lugar. Debruçou o corpo na grade, olhou mais uma vez o asfalto como alguém que examina uma placa de Petri. Inclinou mais um pouco. Já era o final da tarde, ela escolheu este horário porque sabia que o trânsito de veículos seria intenso, talvez este fator lhe ajudasse a cumprir com seu objetivo. O céu estava laranja e o sol ainda quente, mas não mais queimando. Neuza sempre ficou pra mais no trabalho para não pegar trânsito, já fazia um tempo que não viu o céu laranja. Mesmo nos dias de folga, evitava sair de casa, ainda mais no horário de pico. Achou que o por do sol, realmente, era bonito.
Outra pessoa passou pela rua e Neuza lhe perguntou as horas, não que isso fizesse alguma diferença naquele momento, mas era como um costume saber de quanto e quanto tempo andava o relógio. Para seu espanto, a outra pessoa não tinha relógio. Isso causou uma certa indignação em Neuza, onde já se viu, sair de casa sem relógio.
Continuou ali por mais uns instantes, debruçou várias vezes como quem busca algo. Talvez buscasse algo, talvez quisesse testar do lado de lá do viaduto, por debaixo dos pés, sabe o que há além daqui. Foi então que desistiu, cansou e partiu. Mas, antes, passou no trailer de lanche e não pediu o de todo dia. Foi para casa experimentar novos sabores.
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #8
Dia #8
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- Ela dorme como dorme uma criança.
- Tranquila?
- Não, atravessada na cama.
- Ata. Mas ela está bem agora?
- Me parece que sim, só tem um problema.
- Qual?
- Está roncando.
- Ah, mas isso não é um problema.
- Eu sei.
- Será que não é melhor ir lá de novo?
- É a sua vez agora. Aliás, eu não vou lá de novo nas próximas 48 horas.
- Vai sim e vai agora.
- Eita.
...
- E aí?
- Continua dormindo, atravessada na cama, roncando. A única diferença é que agora ela também está babando.
- Ah, deixa de brincadeira.
- Uai, vai lá ver então pra tirar a prova.
...
- E aí?
- E ela está dormindo atravessada na cama, roncando, mas já parou de babar.
- Eu disse. Mas acho que você deveria ir lá de novo, sabe como é, melhor de três.
- Já deu três, duas você, uma minha. Melhor de três unânime.
- Pensou rápido, hein.
- Sempre.
- Então, tá boa noite.
- Espera, não seria melhor...
- Não, não seria. Boa noite.
- Boa noite...
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #7
Dia #7
Preciso dormir. O sono está forte, a cabeça pesada, os olhos já estão secos o traseiro dolorido. Ai, cadeira desconfortável, ainda te jogo fora. Mas ainda tenho que estudar, a prova será amanhã, tenho um monte de folhas para ler. Ô materiazinha xexeleeenta... Zzzz... Tá, onde eu estava mesmo?! Aqui, é acho que sim.. Nossa, esqueci de pendurar a roupa que estava na máquina. Droga! Ai, me perdi de novo. Aqui. Mas eu não estou prestando a atenção em nada. É melhor eu dormir de vez. Espera só até terminar este capítulo...
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Preciso dormir. O sono está forte, a cabeça pesada, os olhos já estão secos o traseiro dolorido. Ai, cadeira desconfortável, ainda te jogo fora. Mas ainda tenho que estudar, a prova será amanhã, tenho um monte de folhas para ler. Ô materiazinha xexeleeenta... Zzzz... Tá, onde eu estava mesmo?! Aqui, é acho que sim.. Nossa, esqueci de pendurar a roupa que estava na máquina. Droga! Ai, me perdi de novo. Aqui. Mas eu não estou prestando a atenção em nada. É melhor eu dormir de vez. Espera só até terminar este capítulo...
No outro dia, no corredor:
- E aí, foi bem na prova?
- Não. Não conseguia me concentrar, estou morrendo de sono.
- Vixi. Tchau.
- Tchau.
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #6
Dia #6
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Pedro ia completar 10 anos, ele esperava ansiosamente pela data. Você, adulto, pode até se perguntar o porquê, mas um garoto de nove saberia responder sem pestanejar: com dez anos já pode andar no banco da frente.
Chegou o dia, Pedro fez aniversário. Como era já costume, uma festinha em casa para os amigos da escola e os primos. Bexiga, bolo, cachorro quente e brigadeiro. Ô delícia que é festa de criança!
Naquele mesmo dia, o aniversariante não andou de carro, não foi preciso a festa foi em casa mesmo. Ele teria que aguardar até a segunda-feira quando seu pai lhe levaria para a escola. Eles sempre iam sozinhos, então, sua mãe não estaria e ele poderia andar no banco da frente.
A segunda chegou, não demorou mais que um domingo, menos para a ansiedade de Pedro. Ele ficou pronto logo e tratou de apressar o pai. Chegou o momento tão esperado por uma década inteira.
Pedro ajeitou-se na poltrona, colocou o cinto (como ele era miúdo, o cinto ficou um pouco pegando no pescoço, mas nada que pudesse atrapalhar aquele momento), respirou fundo e foi como alguém que ganha medalha de ouro. A janela aberta era como a porta da liberdade que ventava no seu cabelo. Na volta da escola, a mesma sensação de strike.
No começo da noite, já em casa, a mãe do menino lhe perguntou como havia sido o passeio. Ele descreveu todas as sensações, cada uma das esquinas. A mãe ficou feliz pelo filho e lembrou com saudade dos seus 10 anos. Depois de alguns minutos de silêncio, Pedro perguntou de supetão:
- Mãe, quantos anos eu tenho que ter para poder dirigir o carro do pai?
***
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #5
Dia #5
Marta e João eram amantes, não desses de relações extraconjugais, eram amantes no sentido primitivo da palavra: aqueles que se amam.
Marta ainda era uma menina, apesar de já ser uma balzaquiana.
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Marta e João eram amantes, não desses de relações extraconjugais, eram amantes no sentido primitivo da palavra: aqueles que se amam.
Marta ainda era uma menina, apesar de já ser uma balzaquiana.
João era homem do tipo galã de novela. Do alto do seu um metro de noventa, exibia ombros largos e barba por fazer. O cabelo já quase descobria uns fios brancos, enquanto Marta cobria os seus com luzes de loiro claro acobreado.
Os dois, como as pessoas gostavam de dizer, eram como corda e caçamba, arroz e feijão, ovo e marmita... Andavam sempre juntos, não porque a sociedade diz que assim deve ser com aqueles que se amam, mas porque era assim que eles gostavam de estar.
João trabalhava todos os dias. Marta era enfermeira, trabalhava dia sim, dia não. Isso era bom, nos dias sim, dava uma certa saudade de João que era matada nos dias nãos. Era como se tivesse passado 87 horas de saudade.
Um dia saíram os dois para jantar. Um jantar a dois, mas nada de muitas frescuras. Eles gostavam mesmo era de pizza. Na verdade, até que escolheram uma pizzaria bacana da cidade, não poderiam comprar muita bebida, a pizza já era bem cara. Mas como a prestação da geladeira acabou no mês passado, ia sobrar uma grana.
O lugar era lindo e bem aconchegante, olharam o cardápio por um tempo. Mas acabaram escolhendo o sabor de sempre e duas taças do vinho da casa. (Vinhos da casa são sempre bons, e baratos). A decoração antiga do lugar chamou à atenção dos dois que por um bom tempo falaram do lugar, da comida, do vinho, de como era bom poder ter uma grana a mais para ir à pizzaria e dos compromissos do dia seguinte.
Para os garçons era evidente que Marta e João eram apaixonados um pela alma do outro, só de olhar dava para perceber. Os dois pagaram a conta e foram embora. No caminho, Marta confessou que estava com sono, João que já a conhecia muito bem, respondeu que não tinha dúvidas sobre isso.
Chegaram em casa e foram logo para a cama. Barriga cheia de pizza dá sono até mesmo no casal mais apaixonado da pizzaria.
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #4
Dia #4
Era um domingo comum, amanheceu com sol, sempre faz sol por aqui, mesmo sendo outono. Poderia ser mais um domingo, mas este seria um pouco diferente. Por mais que estes encontros se repetissem, com pouca frequência, é verdade, eles nunca são monótonos, desagradáveis ou qualquer coisa assim. Só de olhar, já se vê amor.
Uma das saudades da infância se preenche neste momento, não são todos, mas quase todos e isso enche o coração, ou quase enche. Tem vazios que ficam pra sempre, às vezes já não incomodam tanto, mas ainda são vazios.
Com todos juntos é possível ser eu mesma, com pessoas que amo mesmo, de pé descalço na terra, de estômago cheio, risadas, conversas e lembranças. Um dia agradável, um dia de amor.
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Era um domingo comum, amanheceu com sol, sempre faz sol por aqui, mesmo sendo outono. Poderia ser mais um domingo, mas este seria um pouco diferente. Por mais que estes encontros se repetissem, com pouca frequência, é verdade, eles nunca são monótonos, desagradáveis ou qualquer coisa assim. Só de olhar, já se vê amor.
Uma das saudades da infância se preenche neste momento, não são todos, mas quase todos e isso enche o coração, ou quase enche. Tem vazios que ficam pra sempre, às vezes já não incomodam tanto, mas ainda são vazios.
Com todos juntos é possível ser eu mesma, com pessoas que amo mesmo, de pé descalço na terra, de estômago cheio, risadas, conversas e lembranças. Um dia agradável, um dia de amor.
Na despedida, um abraço com palavras que alegram a alma. É impossível descrever a sensação daquele abraço forte na medida, carinhoso sem medida.
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #3
Dia #3
Maria era uma menina pequena de cabelos trançados. Eram várias e pequenas tranças. Seu rosto era delicado, mas ao mesmo tempo possuía uma certa força, com certeza seria uma mulher determinada e de cabelos com personalidade.
Maria era aprendiz de bailarina, mas nos intervalos, entre um e outro passo clássico, mostrava para as outras meninas alguns desajeitados passos de breakdance. Na verdade, imitava as moças da propaganda de uma marca de roupas. E mais na verdade ainda, não sabia que aquilo poderia se chamar breakdance.
Maria era uma menina normal, ao que se entende por normal. Ia à escola pela manhã, a tarde ficava em casa, exceto nas terças e quintas feiras que era dia de balé. Aos sábados, ia à catequese e aos domingos, almoço na casa da vó e missa.
Pode parecer estranho para você, leitor, o porquê de dedicar este texto a uma menina tão, digamos, comum, mas deve ser porque você ainda não viu aqueles olhos determinados e aquele rosto certeiro e corajoso.
Maria não era mais uma menina. Maria era forte.
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #2
Dia #2
O despertador tocou, mas Mário relutou ao chamado, até que no segundo toque da "soneca", junto com o bip do celular, veio a voz do médico: você tem que se exercitar se quiser continuar vivendo. Não que ele quisesse, realmente, continuar vivendo, mas levantou-se mesmo assim.
Mário caminhava quando foi surpreendido. Era de uma beleza incrível e corria em direção oposta a sua, como em um encontro preparado pelo destino. Ele começou a pensar que talvez exercitar-se não fosse tão ruim assim. Apertou o passo. E mais um pouco. Olhou para trás, mas não pode mais vê-la, aquela beleza indescritível e excitante.
No outro dia, levantou-se no primeiro toque do celular.
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Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #1
Se tem uma coisa nessa vida que eu nunca fui boa foi em escrever narrativas. Me lembro que na oitava série (nem é mais assim que se chama) eu precisava escrever uma história para um trabalho final de Língua Portuguesa. Eu, no auge da minha sabedoria de adolescente, decidi que reescreveria, mudando algumas pequenas partes (na verdade quase nada), a história de João de Santo Cristo, afinal a minha professora jamais teria ouvido àquela música tão bacana e tão jovem. Bom, sorte minha que fui uma boa garota durante o ano todo.
Outra história: quando estava fazendo cursinho pré-vestibular, frequentava as aulas de redação no período oposto ao das aulas. Não conhecia muito bem a professora, nem ela a mim, mas ela já tinha percebido que eu manjava dos paranauê da dissertação. Foi então que ela pediu que escrevêssemos uma narrativa. No momento da entrega do texto corrigido:
- Beatriz?
- Eu.
- Você?!
- É.
Mas por que dizes isto jovem menina que não sabe escrever narrativas?
Para dizer-te que a partir de hoje estou me desafiando a escrever uma narrativa por dia durante trinta dias e torná-las públicas por aqui! (Eu devo saber o buraco onde estou me metendo).
Já vi outras pessoas fazerem desafios criativos, como a Zilah do blog Das Coisinhas (já falamos dela aqui) que confeccionou 30 produtos, um por dia, durante um mês. Parte do dinheiro da venda dos trabalhos foi revertida para uma ação social. Foi super legal, eu acompanhei durante todo o mês. O meu desafio é mais humilde, mas é um começo e seu objetivo principal é tirar de mim esta história de que não sei escrever histórias. Ou quase isso.
A partir de hoje, teremos uma narrativa (grande ou pequena, boa ou ruim, do jeito que for) aqui no blog, seja dia de post ou não, durante 30 dias. Talvez saia de madrugada, mas vai sair. E, por favor, não exija de mim, nem crie expectativas. Estamos combinados, cara pálida? Então, lá vai a primeira:
Desafio Criativo - 30 dias 30 narrativas
Dia #1
Como era de rotina, entrou, verificou as correspondências e ligou o wi-fi do celular, enquanto acariciava o gato, sentada na poltrona de retalhos (a sua preferida, e não só por ser a única da casa). Recostou-se um pouco, pode ver que a louça ainda estava na pia, afinal quem poderia ter lavado-a, mas... quem sabe um milagre. Outro carinho no gato e um pensamento "não quero nunca mais levantar daqui".
As pernas doíam um tanto, suspendeu-as no banquinho, tirou o sapato e soltou o cabelo. Ah, os pequenos prazeres da vida. A sensação de desfazer-se de um sapato usado a horas.
Permitiu-se dez minutos de descanso e foi até a cozinha. A noite estava chuvosa e Ana não estava com energias suficientes para cozinhar e lavar louça. Teria que escolher entre uma das tarefas. Olhou para o encarte da pizzaria grudado com um ímã na geladeira e pensou "um dia a mais, um dia a menos", mas aí lembrou-se de que o pagamento era só na próxima semana, "talvez eu faça jejum".
Colocou Cássia Eller para tocar e foi para o banho. De volta ao quarto, lembrou que tinha roupa para passar e as calcinhas limpas já estavam quase no fim, "ai, ai...".
Reconsiderou sobre a pizza. Talvez se arrumasse mais um emprego, talvez a noite de garçonete... Chacoalhou a cabeça em um gesto negativo como se conversasse com alguém. Na busca pela geladeira, encontrou ovos, queijo, carne e arroz requentado. Dava para o gasto e para a fome.
Depois da comida, voltou para a poltrona que fora comprada em uma loja de usados, mas bastou uma colcha de retalhos (que ela ganhara da vó ainda na adolescência) para que ficasse aconchegante. Sentou, recostou-se, pegou o controle da tv, o interfone tocou. "Vou esperar, se não insistirem, nem levanto daqui", tocou de novo, talvez fosse algo importante. Ana decidiu atender.
- Oi, é da casa da Maria?
- Não, só da Ana.
Desligou o interfone e decidiu ir direto para a cama, já era muito por um só dia.
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