Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #8

Dia #8

Neuza já estava ali a pelo menos uns 45 minutos. Olhava para todos os lados, examinava todas as possibilidades, caculando a exatidão dos iminentes movimentos. Em meio a estes cálculos, surgiu a matemática da vida; começaram a pipocar pensamentos. Mas não da forma que antes vinham. Agora eles estavam organizados, pareciam mais óbvios, mais lógicos, mais objetivos... Assim como a quantidade de veículos que passavam por debaixo daquele viaduto.

Então, passou um rapaz, jovem, e entregou-lhe um folheto desses de promoção de mercado. O moço disse bom dia enquanto oferecia-lhe o papel. Neuza pensou em recusar como sempre fez, mas já que seria a última vez mesmo, aceitou o papel e observou o rapaz partir. Mas foi interrompida pelo barulho de um grande caminhão que buzinou alto quando passava por debaixo de seus pés.

Foi quando Neuza lembrou-se do que fora fazer naquele lugar. Debruçou o corpo na grade, olhou mais uma vez o asfalto como alguém que examina uma placa de Petri. Inclinou mais um pouco. Já era o final da tarde, ela escolheu este horário porque sabia que o trânsito de veículos seria intenso, talvez este fator lhe ajudasse a cumprir com seu objetivo. O céu estava laranja e o sol ainda quente, mas não mais queimando. Neuza sempre ficou pra mais no trabalho para não pegar trânsito, já fazia um tempo que não viu o céu laranja. Mesmo nos dias de folga, evitava sair de casa, ainda mais no horário de pico. Achou que o por do sol, realmente, era bonito.

Outra pessoa passou pela rua e Neuza lhe perguntou as horas, não que isso fizesse alguma diferença naquele momento, mas era como um costume saber de quanto e quanto tempo andava o relógio. Para seu espanto, a outra pessoa não tinha relógio. Isso causou uma certa indignação em Neuza, onde já se viu, sair de casa sem relógio. 

Continuou ali por mais uns instantes, debruçou várias vezes como quem busca algo. Talvez buscasse algo, talvez quisesse testar do lado de lá do viaduto, por debaixo dos pés, sabe o que há além daqui. Foi então que desistiu, cansou e partiu. Mas, antes, passou no trailer de lanche e não pediu o de todo dia. Foi para casa experimentar novos sabores.
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