Desafio criativo: 30 dias 30 narrativas #9 #10 #11

Dia #9

Ela não queria tomar aquela decisão. Na verdade, não estava em uma fase de tomar decisões por mais que elas urgissem em acontecer, protelava como quem deixa pra lá lavar a louça do jantar antes de dormir. Passou dias e dias a pensar em como poderia mudar aquela situação e nada, nada, pareceria resolver, além de "aquela decisão". O coração doía que chegava a transbordar dor pelos olhos só de imaginar a possibilidade de viver sem ele, sem seu grande amor. 

A vida parecia um maremoto avassalador entre os dois. As escolhas, as verdades, as lembranças, as decisões... tudo era diferente. A olho nu pareciam o par perfeito, mas de perto, eram muitos desencontros que mais pareciam com encontros fortes, como uma batida em alta velocidade, que nunca fica sem cicatriz. O tempo e o convívio trouxeram muitas cicatrizes, algumas ainda doloridas, outras ela desconfiava que nunca, de fato, cicatrizariam. 

Com o coração doendo, lutando contra a incerteza de que o caminho era a separação, ela mais uma vez buscou refúgio em seu único lugar seguro, o abraço dele. Então, o acelerado acalmou-se, como que se a chuva fina viesse apagar o fogo que transformava tudo em cinza. Como poderia ser uma vida sem? Como poderia ser diferente? Como poderia ser?

E mais uma vez decidiu permanecer no seu porto, na terra firme, no carinho, no aconchego. Talvez essa não fosse o ponto mais seguro. Mas era a única certeza, o amor.
***


Dia #10

Marina e Carlos namoravam há um ano. Ela com 16, ele com 17 anos. Nessa idade, tudo parece infinito, aquele amor então, duraria para esta e outras vidas. Todo dia tinha um bilhetinho declarando o amor eterno que um sentia pelo amor, se não era dela para ele, era dele para ela. Amor e mais amor.

Você, leitor, se tiver mais de 25 anos, deve estar achando esta história uma melosidade sem fim e sem propósito, mas deve-se ser adolescente para entender o coração de um. E eu aposto os meus cinco dedos da mão direita que você passou pela adolescência. E, consequentemente, viveu um amor assim, aliás, aposto os dedos da outra mão se não foi mais de um. 

Não diferente foi com Marina e Carlos, depois de um ano, cinco meses e 27 dias de amor eterno, uma menina de cabelos loiros e olhos verdes passou pelo caminho de Carlos e se encantou pelo rapaz. Marina acabou sendo deixada de escanteio. E Carlos foi viver outro amor infinito.

Leitor, leitor... Não fique com raiva do menino, nem com pena da menina. Muito menos deseje coisas ruins para o terceiro elemento deste triângulo. Todos passam bem hoje, e já quase nem se lembram deste amor adolescente, afinal, todos hoje têm um novo amor (infinito).
***


Dia #11

Andreia estava às vésperas do vestibular, precisava escolher um curso, ou melhor, uma profissão para toda a vida. Era uma escolha tão imensa que ela não entendia porque não conseguia escolher um. Começou por exclusão:
- Exatas, não. Biológicas também não. Tá, diminuíram-se as possibilidades. Agora de 144 páginas no Manual do Vestibulando, sobraram apenas 37. Estamos caminhando.

Da mesma forma que não entendia o porquê de não conseguir escolher um, não entendia porque deveria escolher apenas um:
- Tanto tempo de vida ainda e eu aqui precisando decidir agora já.

A próxima tática foi excluir os cursos com grande concorrência. 
- Uhumm, mais passos em direção ao futuro. 

Ela achou que seria um absurdo a próxima tática, mas depois que a mãe já havia lhe perguntado pela terceira vez se já havia concluído a inscrição, Andreia decidiu parar de encarar aquela revista e partir pro abraço. Fez o que, de certa forma, já estava fazendo enquanto procurava uma carreira sólida e promissora naquelas páginas: sorteio. Como quem prepara o amigo secreto da família, escreveu os nomes em papeizinhos, chacoalhou-os entre as mãos, atirou-os para cima, como nos sorteios do Faustão e pronto. Feito. Decidido.

Pela quarta vez naquela noite:
- Filha, fez a inscrição para a prova?
- Fiz.
- Qual curso? 
- Filosofia.
- Quê?
- Filosofia.
- Mas... por que isso agora?
- Ué, você me mandou escolher um curso. Eu escolhi. Ou melhor, o curso me escolheu - respondeu sem revelar como teria sido a escolhida pelo curso.
- Vou falar com o seu pai.
- Tá.

Passado o trauma paterno e os quatro anos de graduação, Andreia se formou com direito à beca e ao diploma. Agora, era uma graduada a procurar emprego, como havia feito há uns anos atrás, buscava uma carreira sólida e promissora, mas agora no mercado de trabalho, pois tinha contas a pagar e, até hoje, não encontrou ninguém que aceitasse diploma como forma de escambo.
***


obs.: me enrolei no final de semana e não consegui postar os textos nos dias corretos, por isso hoje, segunda, veio com um combo de sábado e domingo.

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